Évora, 23 de janeiro de 2026
A Associação Nacional de Displasias Ósseas - ANDO Portugal, manifesta profunda preocupação e desaprovação relativamente à reportagem intitulada "Anões: Das Festas Secretas às Diferenças no Dia a Dia", publicada no semanário SOL a 8 de janeiro de 2026, pela jornalista Isabel Laranjo.
A ANDO foi contactada pela jornalista Isabel Laranjo, com um pedido de colaboração para uma reportagem destinada a informar sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas com displasia óssea. Em conformidade com a nossa missão institucional, estabelecemos desde o início uma condição clara, reiterada por diversas ocasiões: a utilização de uma terminologia respeitosa e adequada, rejeitando expressamente o termo "anão". Uma palavra que, sabidamente, carrega séculos de conotações depreciativas, estigmatizantes e desvalorizantes. Esta solicitação não se tratava de um pedido acessório, mas sim de uma questão central e fundamental de dignidade humana e coerência ética.
Perante a confirmação da jornalista de que a reportagem seria conduzida da forma mais correta possível e de que seria partilhada para validação antes da publicação, a ANDO aceitou funcionar como ponte de contacto para pessoas adultas com displasia óssea. Estas aceitaram generosamente partilhar as suas histórias pessoais, desafios do quotidiano e perspetivas de vida, acreditando, pois assim lhes foi apresentado, que estariam a contribuir para uma narrativa informativa que promovesse compreensão e respeito social.
Apesar deste compromisso explícito, a reportagem publicada recorre ao termo "anão" logo no título e ao longo de todo o texto, estruturando a narrativa em torno deste termo. Mais grave ainda, reduz as pessoas com displasia óssea a objeto de entretenimento, curiosidade mediática e sensacionalismo, ofuscando completamente o fio condutor sobre os desafios reais, a discriminação sistémica e as dificuldades de acessibilidade, que deveriam ter constituído o verdadeiro cerne da peça.
O sensacionalismo reina supremo: as "festas secretas", o "arremesso de anões" e a contratação de pessoas para eventos privados constroem um enquadramento que trivializa e espetaculariza, em vez de informar com rigor e integridade.
Trata-se de um caso factual de contradição ética entre a intenção declarada e a execução editorial. A ANDO reconhece que o jornalismo tem liberdade editorial, mas esta liberdade não pode ser exercida em desrespeito daqueles cuja confiança foi solicitada e implicitamente prometida. Quando um jornalista pede colaboração e define parâmetros éticos que a fonte aceita e valida como fundamentais, estabelece-se um compromisso moral de honrar esse entendimento.
Os valores fundamentais da ANDO assentam numa verdade simples, mas poderosa: a linguagem que utilizamos reflete e perpetua a forma como observamos, compreendemos e nos relacionamos em sociedade. Só é possível mudar preconceitos estruturais se começarmos por eliminá-los da linguagem.
A ANDO sabe que existem histórias importantes para contar sobre as vidas de pessoas com displasia óssea: as barreiras de acessibilidade, a discriminação no mercado de trabalho, as complexidades médicas e psicossociais, bem como as aspirações e conquistas que refletem a realização plena das pessoas na sociedade. A reportagem inclui alguns destes elementos, mas foram secundarizados em favor do sensacionalismo.
A ANDO mantém firme o seu compromisso de erradicar o uso de terminologia depreciativa nas narrativas públicas sobre pessoas com displasia óssea; de valorizar estas pessoas como membros plenos da sociedade, com direito inalienável a respeito e reconhecimento; de intervir de forma crítica junto dos meios de comunicação que, alegando responsabilidade informativa, não honrem os compromissos éticos assumidos; e de apoiar um jornalismo que dignifique em vez de explorar, que informe em vez de entreter à custa da vulnerabilidade.
A ANDO reforça: a linguagem é o primeiro passo para a mudança social. Esta mudança depende de todos nós, da ANDO e de cada pessoa com displasia óssea, das famílias, dos profissionais de saúde, da educação, do trabalho, da ação social e dos meios de comunicação social.