Acondroplasia

A acondroplasia é uma condição genética rara que afeta ossos e cartilagem. É a displasia óssea mais frequente e estima-se que 1 em cada 25 mil crianças nasce com acondroplasia, sendo que há 250 mil pessoas no mundo com esta condição1.

Afeta quase todos os ossos do corpo e o impacto desta condição pode levar a complicações graves, progressivas e duradouras, mas apesar das complicações a acondroplasia não impede as pessoas de terem vidas felizes e gratificantes.

Veja o vídeo sobre Acondroplasia

O que é a Acondroplasia1?

A palavra acondroplasia significa "sem formação de cartilagem". A cartilagem é um tecido flexível que compõe grande parte do esqueleto durante o seu desenvolvimento inicial. Contudo, na acondroplasia o problema não está na formação de cartilagem, mas na sua conversão em osso (processo chamado ossificação), particularmente nos ossos longos dos braços e pernas.

Os efeitos mais visíveis são a baixa estatura, a desproporção dos membros e as características faciais. Todas as pessoas com acondroplasia têm baixa estatura. Conheças as medidas corporais em adultos aqui.

hereditariedade

Fig. 1. Hereditariedade: a acondroplasia passa de pais para filhos. No entanto, a maioria das crianças (80%) não tem historial da condição na família. Neste caso, a condição surge como resultado de uma mutação de novo.

O que causa a Acondroplasia2,3?

Os ossos começam a crescer antes do nascimento e continuam até à idade adulta. Isto acontece nas placas de crescimento, onde se produz cartilagem que é depois substituída por osso. Neste processo, chamado de ossificação endocondral, as células da cartilagem (condrócitos) alinham-se para formar um novo osso.

A acondroplasia é causada por mutações no gene FGFR3. Este é responsável pela criação de uma proteína que regula, através de "sinais", o crescimento e manutenção do tecido ósseo. Estes sinais dizem para abrandar o crescimento quando o corpo precisa de parar de transformar cartilagem em osso.

Na acondroplasia, devido à ativação excessiva da proteína FGF3, estes sinais de abrandamento do crescimento ósseo são enviados continuamente e, como resultado, os condrócitos têm dificuldade em formar novo osso, prejudicando o desenvolvimento do esqueleto.

Características Clinicas4,5,6

Apresentamos as características clínicas e complicações mais comuns na acondroplasia, ao longo das estapas da vida:

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Fig. 3. A: Rizomelia, desproporção dos membros (fonte Orphanet). B: à esq. perfil comum; à dir. perfil com hipoplasia do terço médio da face (fonte: Ramos et al). C: Macrocefalia. D: Braquidactilía - dedos curtos e mãos largas em forma de tridente (fonte: Rixir.co.pk). E: à esq. genu varum; à dir. após correção cirúrgica (fonte: Studyblue)
  • Hipoplasia do terço médio da face: subdesenvolvimento do maxilar superior, maçãs do rosto e órbitas . Juntamente com a hipertrofia das adenóides e amígdalas, pode levar à apneia obstrutiva do sono (redução do fluxo de ar durante o sono).
  • Otites médias presentes em 25% das crianças com acondroplasia, causadas por tubos de eustáquio curtos. Podem levar a problemas auditivos, como perda de audição condutiva, presente em 40% dos adultos com acondroplasia.
  • Compressão da medula espinal no foramen magnum pode ocorrer durante a primeira infância. Causa apneia do sono central, atrasos no desenvolvimento e sintomas neurológicos. Normalmente resolve com o crescimento, mas a descompressão cirúrgica pode ser necessária.
  • Pélvis com asas ilíacas quadradas e um canal sacrociático estreito. Tipicamente, as mulheres com acondroplasia têm de realizar parto por cesariana, devido ao tamanho reduzido da pélvis. Saiba mais sobre gravidez nas displasias aqui.
  • A característica física mais evidente é a baixa estatura que afeta largamente o dia a dia das pessoas em termos de mobilidade. Saiba como contornar alguns desafios aqui.
  • Também a dor e as questões psicoemocionais podem representar um entrave à qualidade de vida. O seu impacto a nível clínico e social pode ser muito diferente de pessoa para pessoa.
Diagnóstico1,2
  • A acondroplasia pode ser diagnosticada antes do nascimento com base em características físicas verificadas durante a ecografia do 3º trimestre. Pode ser confirmada por amniocentese, detetando a mutação mais comum do gene FGFR3. O diagnóstico genético pré-implantação é possível e amplamente acessível.
  • O diagnóstico após o nascimento baseia-se na presença de características clínicas e radiológicas e pode ser confirmado com testes genéticos.
  • Sem os testes genéticos, pode haver um diagnóstico errado que pode resultar no aconselhamento desadequado aos pais.
Tratamentos7

Os cuidados multidisciplinares e de antecipação são essenciais:

  • Os recém-nascidos devem realizar exames radiográficos ao cérebro e à coluna cervical para avaliar o foramen magnun e detetar hidrocefalia.
  • O exame de polissonografia serve para verificar a apneia do sono obstrutiva. O tratamento desta complicação pode incluir adenotonsilectomia e utilização de um aparelho de pressão positiva das vias aéreas (CPAP, do inglês Continuous Positive Airway Pressure). Alterações detetadas devem justificar um rápido encaminhamento para a neurologia e neurocirugia, de modo a efetuar avaliação e possível tratamento cirúrgico.
  • O tratamento de infecções dos ouvidos e otite média serosa, juntamente com a avaliação de quaisquer problemas auditivos, é necessário. A fonoaudiologia pode ser oferecida caso surjam preocupações.
  • A curvatura progressiva das pernas pode ser tratada cirurgicamente.
  • Os adultos podem necessitar de uma laminectomia lombar para tratar a estenose espinal.
  • O ganho de peso deve ser monitorizado na infância para evitar complicações posteriores.
  • Deve ser oferecido apoio social e psicológico.

 

Medicamentos aprovados:

  • O  Voxzogo (vosoritide) é indicado para o tratamento da acondroplasia em pessoas com idade igual ou superior a 2 anos, cujas epífises não estão fechadas. Consulte informação da Agência Europeia do Medicamento (EMA) sobre este medicamento, nomeadamente, informações clínicas e propriedades farmacológicas, aqui.

 

Medicamentos em investigação:

  • O tratamento da acondroplasia representa um grande desafio para os investigadores. Estamos a assistir ao avanço de vários ensaios clínicos em crianças, graças a estudos pré-clínicos bem sucedidos que conduziram a novos conhecimentos que possibilitam inovadoras estratégias e abordagens terapêuticas. Estes novos tratamentos encontram-se em fase de avaliação de segurança, eficácia e farmacocinética. Existem vários medicamentos em estudo. Conheça-os aqui.

Saiba Mais
Bibliografia
  • 1. Bober, M. and A. Duker. Achondroplasia. 2013 ;
  • 2. Horton, W.A., et al, Achondroplasia. The Lancet, 2007. 370(9582): p. 162-172.
  • 3. Rousseau, F., et al., Mutations in the gene encoding fibroblast growth factor receptor-3 in achondroplasia. Nature, 1994. 371(6494): p. 252-4.
  • 4. American Academy of Sleep Medicine, International classification of sleep disorders, revised: Diagnostic and coding manual. 2001: American Academy of Sleep Medicine.
  • 5. Hunter, A.G., et al., Medical complications of achondroplasia: a multicentre patient review. Journal of Medical Genetics, 1998. 35(9): p. 705-712.
  • 6. Trotter, T.L. and J.G. Hall, Health Supervision for Children With Achondroplasia. Pediatrics, 2005. 116(3): p. 771-783.
  • 7. Legeai-Mallet, L., & Savarirayan, R. (2020). Novel therapeutic approaches for the treatment of achondroplasia. Bone, 141, 115579.
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