Displasias Ósseas

As displasias ósseas, também conhecidas por osteocondrodisplasias, englobam um conjunto muito heterogéneo de condições ósseas raras que afetam, maioritariamente, o desenvolvimento, a estrutura e a constituição dos ossos, da cartilagem e da dentina. Estão atualmente identificadas 461 displasias ósseas, não letais e letais, divididas em 42 grupos de acordo com 4 critérios: fenotípicos (aspeto físico), radiológicos, bioquímicos e genéticos. Embora sejam individualmente raras, têm uma prevalência média de 1 caso a cada 5000 nascimentos.

As displasias não letais mais frequentemente observadas são as displasia ósseas associadas ao gene FGFR3, como a acondroplasia, a discondrosteose de Léri-Weill, as colagenopatias tipo II como a displasia espondiloepifisária congénita (SEDC) e a osteogénese imperfeita. O impacto que as displasias ósseas têm a nível clínico, pessoal e social pode ser muito diferente de pessoa para pessoa, assim como para as famílias.

 

Quantas pessoas há em Portugal que têm uma displasia óssea?

Não existe um registo nacional para displasias ósseas e recorremos a um cálculo estimativo:

  1. Com base nos dados do RENAC (Registo Nacional de Anomalias Congénitas), existe uma prevalência de osteocondrodisplasias de 0,7 casos a cada 10.000 nascimentos.

  2. E com base nos dados relativos aos nascimentos por ano em Portugal da Pordata, poderão nascer em média entre 20 a 30 bebés com displasias ósseas em Portugal, todos os anos.

  3. Considerando uma redução de 10 anos na esperança de vida, e contabilizando 74 anos como esperança média de vida para uma pessoa com displasia óssea, poderão existir em Portugal atualmente, em todas as faixas etárias, cerca de 1500 pessoas com displasia óssea, sendo que a mais frequente é a acondropasia.

 

Qual a origem das displasias ósseas?

As displasias têm origem genética e surgem devido a variantes patogénicas no ADN. Variantes são alterações que podem surgir de forma espontânea e pela primeira vez no indivíduo afetado, sendo conhecidas como variantes de novo, ou podem ser herdadas de forma autossómica recessiva, autossómica dominante, recessiva ligada ao cromossoma X, dominante ligada ao cromossoma X, e ligada ao cromossoma Y", passando de pais para filhos

 

Como se diagnostica uma displasia óssea?

A suspeita de diagnóstico pode surgir no segundo trimestre de gravidez, mas, em muitos casos, o diagnóstico só é confirmado após o nascimento. Contudo, chegar ao diagnóstico correcto pode demorar anos. Este atraso pode ter vários motivos, entre os quais o reduzido conhecimento e reconhecimento de displasias ósseas por muitos profissionais de saúde; a muito limitada referenciação de casos com suspeita de displasia óssea; as características diversas de cada displasia e a perda parcial de seguimento clínico da criança/adulto com displasia óssea.

O diagnóstico deverá ter como base um exame físico completo para observação de características distintivas ou dismórficas. Deve ser avaliada a história familiar e podem ser necessários estudos imagiológicos e laboratoriais para confirmar o diagnóstico clínico ou molecular. A genética médica é a especialidade por excelência para o diagnóstico de displasias ósseas, havendo contributos por parte da pediatria, endocrinologia, ortopedia e fisiatria/reumatologia, principalmente.

 

Quais os tratamentos farmacológicos disponíveis para as displasias?

Só existem tratamentos farmacológicos específicos disponíveis para 1% das displasias ósseas e estes são tratamentos com fármacos aprovados em condições especiais, também designados por medicamentos órfãos. No entanto, estão atualmente em investigação ou em ensaio clínicos, tratamentos farmacológicos, para outras 7 displasias. Apesar de não serem curativos, estes tratamentos em desenvolvimento podem melhorar significativamente a qualidade de vida da pessoa com displasia.

 

Acompanhamento multidisciplinar ao longo da vida

Podem surgir diferentes complicações associadas à displasia óssea ao longo da vida, podendo ser afetados diferentes sistemas orgânicos como o sistema musculoesquelético, neurológico, respiratório, entre outros. Por este motivo, é muito importante um acompanhamento de acordo com as necessidades de cada pessoa, feito por uma equipa multidisciplinar. No cenário ideal, o seguimento seria realizado num centro hospitalar de referência, com acompanhamento de proximidade por uma equipa de profissionais de saúde na área de residência. O Centro Hospitalar Universitário de Coimbra tem no Hospital pediátrico uma Consulta multidisciplinar de displasias ósseas desde 2015 e, desde 2018, tem também consulta de adultos. O Hospital de Santa Maria, em Lisboa, também acompanha pessoas com displasia óssea, com maior experiência em Osteogénese Imperfeita.

É importante referir que a gestão dos cuidados médicos ao longo da vida consome muitos recursos: energia pessoal, disponibilidade profissional e financeira, assim como tempo e força emocional. Quando uma pessoa tem uma displasia óssea, partilha parte das suas experiências com a família mais próxima (pais, irmãos, avós) e superar as questões que vão surgindo pode representar um enorme desafio. O apoio psicológico para recuperar ou adquirir estabilidade emocional pode ser da maior importância para a pessoa com displasia óssea e para a sua família.

 

A baixa estatura

A baixa estatura é a característica física mais evidente nas displasias ósseas, contudo, esta pode ter uma causa genética distinta das displasias. Existem outras causas, nomeadamente de origem hormonal ou metabólica. A baixa estatura tem um grande impacto na vida das pessoas com displasias, pois todas as questões relacionadas com a acessibilidade, de forma a assegurar independência, são muito relevantes. Existem vários desafios sociais face à diferença física, ser diferente pode ser muito impactante para as pessoas com displasia óssea e para as suas famílias.

 

Apoio psicoemocional

É frequente as crianças começarem a questionar "porque são assim?" entre os 4 e os 6 anos e o papel dos pais na aceitação da doença é essencial, embora, nem sempre fácil. Quando os pais descobrem que o filho/a tem uma displasia óssea, passam um período emocionalmente muito complexo, que pode demorar meses ou anos a superar. O tempo que poderá demorar a obtenção do diagnóstico não facilita este processo. Aceitar que o/a filho/a tem uma displasia e recuperar emocionalmente é um passo muito importante para o/a puder ajudar

 

O caminho a percorrer

Há ainda muito caminho pela frente para que seja possível chegar ao diagnóstico precoce de muitas das displasias ósseas menos frequentes. Entretanto, é essencial haver maior consciencialização da sociedade para a diferença física; é importante que cresçam os apoios que possibilitem mais investigação científica centrada nas necessidades das pessoas e que haja melhor e mais rápido acesso a terapias e medicamentos inovadores, assim como aumentar o conhecimento sobre as displasias ósseas entre profissionais de saúde, famílias e sociedade em geral.

 

Ser Pessoa!

Antes de ter uma displasia óssea, ter família, ter amigos, ou ter gostos e vícios; acima e antes de tudo Ser pessoa é o valor fundamental. E cada pessoa, antes da raça, género, nacionalidade ou condição, tem no seu nome próprio a sua primeira identidade. As pessoas não são displasia óssea. As pessoas têm características particulares com origem numa displasia óssea.

Não é fácil mudar ideias enraizadas e preconceitos sociais. Mas é possível! E tem de ser o nosso objetivo mudar a forma como as pessoas com displasia óssea são tratadas e reconhecidas na sociedade.

Através dos tempos, a língua evolui assim como a sociedade evolui, mas a mudança precisa de um trabalho conjunto, com a colaboração de todos, para reeducar a sociedade a utilizar termos que são construtivos, informativos e não têm ligações históricas e/ou culturais a ideias ou figuras mitológicas ou do imginário. Dizer "displasia óssea", "condição óssea rara" e "baixa estatura", é importante, para que caiam em desuso palavras que se arrastam desde os tempos medievais e que nada trazem de positivo ou de valor.

 

 

 

Nota: partes deste texto estão incluídas numa entrevista concedida ao Atlas da Saúde, em outubro 2020.

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