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E assim aconteceu o 3º Encontro Nacional ANDO

Este Encontro ficou marcado pelas pessoas, pelos momentos de partilha, pelos palestrantes e temas e redefiniu a vontade de continuar a fazer mais. Recebemos pessoas de vários pontos do país e do mundo pois de facto foi um dia muito internacional com palestrantes de Portugal, EUA, Holanda, Dinamarca e Espanha.

Foto de grupo

A abertura do Encontro foi feita pela Sílvia Parreiral, socióloga e professora da Escola Superior de Educação (ESEC), que colaborou intensamente e abraçou a organização do Encontro na ESEC de uma forma única e incansável, fazendo tudo ao seu alcançe para ajudar a concretizar este dia. Muito Obrigado! E para lá de ser professora, é sócia da ANDO e mãe do jovem Francisco.

Iniciou-se o programa com uma introdução às displasias ósseas pelo Prof. Sérgio Sousa, explicando como o crescimento ósseo acontece, fazendo uma observação mais próxima a displasias específicas como a hipocondroplasia, pseudoacondroplasia, displasia diastrófica e seguimento clínico.

Sérgio Sousa, Pediátrico Coimbra

Seguiu-se o painel de investigação no qual participaram representantes de empresas farmacêuticas, que apresentaram as fases de desenvolvimento de medicamentos inovadores, estudos que estão a decorrer e a sua prioridade no sentido de melhorar as vidas das pessoas pela redução das complicações que as displasias acarretam. Abriu o painel a Karin Otter, Diretora Médica da BioMarin que se focou nas fases de desenvolvimento clínico de medicamentos órfãos (para doenças raras) e a importância do contributo dos pais e cuidadores no desenvolvimento destes medicamentos, através do contributo com observações do seu dia-a-dia das crianças com acondroplasia.

Karin Otter, BioMarin

Nesse seguimento, apresentou o estudo observacional longitudinal, o LIAISE (Lifetime Impact of Achondroplasia Study in Europe) que tem como objetivo compreender o que é viver com a acondroplasia e mapear as questões de saúde que podem surgir durante toda a vida das pessoas com acondroplasia, com o foco na melhoria das terapêuticas.

Tanja Hoffman, Diretora de Projetos da Therachon, abriu a apresentação com um texto em Português e enquadrou a evolução dos estudos da molécula inovadora TA-46, que se trata de um receptor-isco, que vai captar as partículas que ativam o receptor com mutação na acondroplasia, de forma a reduzir esta ativação, diminuindo o impacto da mutação.

Tanja Hoffman, Therachon, Holanda

Falou ainda do estudo observacional Dreambird, para a avaliação do desenvolvimento natural de crianças com acondroplasia e que será realizado em Portugal, no Hospital Pediátrico de Coimbra, com coordenação do Prof. Sérgio Sousa. Estão a ser atualmente recrutadas crianças para integrar este estudo, que precede o ensaio clínico com o TA-46.

Ainda são pouco frequentes estudos e ensaios clínicos pediátricos em Portugal, mas num esforço conjunto da ANDO Portugal, do Prof. Sérgio Sousa e direção do Hospital pediátrico a quem agradecemos todos os esforços encetados, foi possível trazer o estudo Dreambird para Portugal.

Will Carlton, director Médico da Ascendis Pharma, apresentou o TransCon CNP para a acondroplasia e o ACHieve, o estudo observacional com fortes possibilidades de ser levado a cabo no Pediátrico de Coimbra também.

Will Carlton, Ascendis Pharma, USA

A companhia QED apresentou o desenvolvimento do Infigratinib para a acondroplasia, por Carl Dambkowski, director médico, com referência aos resultados positivos que esta molécula teve em estudos pré-clínicos, com modelo de ratinho com acondroplasia e que entrará também em ensaio clínico no final de 2020.

Carl Dambkowski, QED, USA

O tempo de partilha e conversas entre os participantes foi crescendo, aproveitando os intervalos da manhã, almoço e da tarde, enquanto as crianças brincavam e faziam atividades com os animadores, alunos da ESEC.

Após o intervalo da manhã, a Directora de Assuntos Médicos da companhia Kyowa Kirin, Ana Marques, fez uma apresentação sobre a hipofosfatémia ligada ao cromossoma X (XLH), uma doença hereditária ligada ao metabolismo do fósforo e do cálcio, em que ocorrem alterações ósseas como o raquitismo, debruçando-se sobre o impacto da doença na vida das pessoas e da nova abordagem terapêutica, o Crysvita.

Ana Marques, Kyowa Kirin

Seguiu-se Elena Molina, consultora da Clementia-Ipsen, que falou da Fibrodisplasia Ossificante Progressiva, uma doença ultra rara óssea altamente debilitante e com reduzida esperança de vida, em que há formação de osso em músculos, tendões e ligamentos. Descreveu como o Palovarotene, um medicamento inovador, é capaz de reduzir o formação de novo osso. Falou ainda sobre os Osteocondromas múltiplos (MO), doença rara óssea em que ocorre desenvolvimento de múltiplos tumores benignos, os osteocondromas, e como também nesta doença o Palovarotene reduz a neoformação (nova formação) deste tumores. Está a decorrer um ensaio clínico de fase 2 para a MO no Hospital pediátrico de Coimbra.

Elena Molina, Clementia-Ipsen

Seguiu-se o painel do desporto adaptado, um momento alto do Encontro com a moderação da Lia Silva, quem colaborou incansavelmente para a organização deste painel. Abriu o painel Pedro Lima, treinador na ADADA, Associação de Desporto Adaptado do Porto, que numa apresentação intuitiva e carismática, informou sobre as associações que existem dedicadas aos desporto adaptado, a importância de praticar desporto e como as crianças, jovens e adultos com displasias podem iniciar o seu percurso no desporto adaptado; o atleta João Campos partilhou o seu exemplo de vida em que com muita determinação, iniciou a sua carreira como atleta aos 36 anos e todos os momentos importantes que tem alcançado pelo gosto que viu crescer na competição;

José Pedro Soares, Miguel Monteiro, Pedro Lima, João Campos e Lia Silva (da esquerda para a direita)

A sessão ficou mais cativante ainda quando Miguel Monteiro, o jovem atleta paralímpico, vice-campeão mundial de lançamento do peso, classe F40, falou sobre o seu percurso de contínua superação de resultados e como tem evoluido fisica e emocionalmente. O Miguel está atualmente em preparação para os Paralímpicos de Tóquio, 2020; e José Pedro Soares, coordenador do Football for all, Leadership Program (Programa de liderança “Futebol para todos”,), que embora com o curso de direito, criou este programa pela sua paixão pelo desporto e de forma a criar oportunidades reais e estimulantes para pessoas com deficiência, para que vivam a experiência do desporto, executem projectos com orientação por profissionais experientes e possam vir a desempenhar funções em instituições desportivas pelas Europa. Este programa é uma oportunidade única e qualquer pessoa com deficiência maior de 18 anos se pode candidatar! Candidaturas aqui.

Plateia

A primeira sessão da tarde foi dedicada aos alongamentos ósseos em displasias e novas abordagens cirúrgicas, por João Cabral, médico ortopedista do Hospital pediátrico de Coimbra, que de uma forma muito esclarecedora e acessível, explicou o processo de alongamento ósseo, a sua aplicabilidade e experiência com alongamentos com recurso às inovadoras cavilhas intramedulares.

João Cabral, Pediátrico Coimbra

Tivemos também a honra de ter como palestrante o Presidente do Conselho directivo do Instituto Nacional de Reabilitação, Humberto Santos. O INR é um Instituto Público que prossegue atribuições do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e que atribuiu em 2018 à ANDO Portugal, o estatuto de ONGPD, Organização não governamental para pessoas com deficiência.

Humberto Santos, INR

Humberto Santos apresentou o INR e como de forma integradora, este instituto atua de forma a assegurar e defender os direitos das pessoas com deficiência e o apoio aos projectos de associações, como a ANDO Portugal.

Seguiu-se um novo tema, com a Lia Silva, psicóloga clínica e sócia da ANDO, que deu a saber como as características individuais, a família, a escola/emprego e a comunidade se interligam, apresentando exemplos de pessoas com displasias ósseas e baixa estatura, que foram ou são exemplos marcantes e fortes na sociedade.

Lia Silva

Logo após, Paula Campos Pinto, doutorada em sociologia, docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa e coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, falou sobre a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e os indicadores para avaliar as condições de vida, proteção social, acesso à educação e ao emprego das pessoas com deficiência. As displasias ósseas são condições que aportam incapacidade motora, a maioria acima dos 60%.

Paula Campos Pinto, ODDH

E chegou o momento do tema dos irmãos de crianças com displasias ósseas ser abordado de uma forma superiormente cativante por Margarida Custódio dos Santos, douturada em psicologia, e docente na Faculdade Psicologia da Universidade Lisboa e ESTeSL. Através de exemplos práticos, abordou algumas das questões e problemáticas com que as crianças e jovens irmãos, sem displasia, vão passando e como compreender as situações que se geram. O tema gerou muito interesse e questões da plateia, por ser algo pouco falado contudo da maior importância para as famílias.

Margarida Custódio dos Santos, FPUL

Seguiu-se Manuela Prata, docente de Educação Especial em representação da Pró-Inclusão, Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, falou sobre um tema de enorme relevo, o da inclusão escolar dos alunos com deficiência, passando pelas políticas públicas da educação e o novo decreto de lei 54/2018, os pontos relevantes e as ações necessárias para haver de facto uma educação inclusiva, integradora de todos os alunos.

Manuela Prata, Pró-Inclusão

Chegou o momento de Raul Tomé, sociólogo, autor do livro “Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – Dinâmicas de Inclusão e Exclusão”, fruto de um trabalho de vários anos, e que com resiliência e perserverança, foi capaz de criar um trabalho único e de apoio jurídico para as pessoas com baixa estatura poderem entrar e progredir no mercado de trabalho com acesso a informação sobre os seus direitos e formas de participação.

Raul Tomé

Para lá da sua apresentação, o livro esteve disponível para aquisição no espaço do Encontro, e queremos agradecer todo o esforço e dedicação do Raul Tomé, assim como o seu donativo de cedência integral do valor dos direitos de autor para a ANDO. Muito Obrigado. Para adquirir um exemplar do livro, entre em contacto com a ANDO através do info@andoportugal.org

Num momento seguinte, Diogo Costa apresentou exemplos práticos e acessíveis de adaptações em casa, escola, trabalho e no carro, apresentando também o Guia de condução, com informações relevantes para pessoas com baixa estatura que querem conduzir. Pode encontrar mais informações no site da ANDO e aqui.

Diogo Costa

Quase a fechar o programa, Diogo Ramos, da Exigo Consultores, apresentou o mais recente projecto em parceira com a ANDO, e também com a APOI, Associação Portuguesa de Osteogénese Imperfeita, co-financiado pelo INR. Descreveu o projecto que se irá centrar na Avaliação da Qualidade de vida relacionada com a saúde (QVRS) nas Displasias Ósseas em Portugal.

Diogo Ramos, Exigo Consultores

Lembrou que a displasias ósseas estão associadas a um elevado impacto clínico, emocional e social na qualidade de vida das pessoas  com displasia e das suas famílias mas que, a QVRS das pessoas com displasias ósseas permanece pouco estudada, em particular em Portugal. Para apoiar o desenvolvimento deste projecto nacional, é prioritário conhecer a realidade das pessoas com displasias e perceber o impacto da displasia na sua qualidade de vida.

E assim foi lançado o repto de colaboração. Este projecto só poderá ser levado em frente com as pessoas. Se tiver uma displasia óssea ou for cuidador de uma criança, jovem com displasias, colabore! Contacte a ANDO através do info@andoportugal.org com o assunto “Qualidade de vida”

E a fechar o Encontro, foi o momento da revelação dos alunos vencedores da 1ª Bolsa ANDO, a Joana Parreira, do curso de Fisioterapia, aluno da Escola Superior de Saúde de Leiria e o Gonçalo Perry da Câmara, aluno de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas – Nova Medical School. Nesta 1ª edição da Bolsa ANDO, ambos alunos farão um estágio extracurricular nos EUA, no hospital pediátrico Nemours, em Delaware, na clínica de displasias ósseas, com coordenação do Dr.William Mackenzie de 8 a 19 de Julho 2019. Muitos Parabéns a ambos!

Inês Alves, Gonçalo Perry da Câmara e Joana Parreira (da esquerda para a direita)

O dia terminou num jantar convívio, com óptimo ambiente e tempo de conversa descontraído entre os participantes. Fechamos este dia

Agradecimentos

Foram vários os meses de preparação deste Encontro que esperamos ter culminado num dia de aprendizagem, conhecimento, confraternização e alegria para todos. Os nossos mais sinceros agradecimentos à Escola Superior de Educação de Coimbra, na pessoa do Prof. Rui Antunes e em especial à Sílvia Parreiral, assim como a todos os patrocinadores do 3º Encontro. Ao Sérgio Sousa pela sua incansável e dedicada colaboração com a ANDO e dedicação às crianças e todas as famílias. À Carolina Lemos pelo entusiamo e por ter incentivado o Diogo, a Sara e a Ana, seus alunos de medicina, a colaborar no apoio à comunicação aos palestrantes internacionais. À Margarida Silva pela energia e por ter possibilitado que palestrantes tão relevantes tenham participado no Encontro. Ao Raul Tomé pelo seu apoio e donativo à ANDO dos seus direitos de autor. À Lia Silva por ter organizado o painel do desporto e ter apoiado com a participação da Margarida Custódio dos Santos. À Cristina Louro, que sem nunca a ter conhecido, nos apoiou imenso a criar pontes e contactos com alguns palestrantes. À Diana, Bernardo e Vanessa, os alunos de educação da ESEC, que apoiaram e brincaram todo o dia com as crianças. À Carolina Santos por ter registado este dia em imagens. Ao Diogo Costa pelo apoio no secretariado. Ao José Sim-Sim, pela paciência e apoio incondicional, pela juda na organização ao longo do dia e nos preparativos do Encontro. E ao Afonso e à Clara que ajudaram na logística com as t-shirts da ANDO enquanto descansavam entre brincadeiras.

E eis que o mais importante vem no final, a todos vós que vieram, participaram, acreditaram e levaram para casa saber, emoções e vontade de mais. E é assim que caminhamos juntos! Muito Obrigado a todos.

Patrocinadores 3º Encontro Nacional ANDO

Veja o álbum de fotografias de seguida!

Álbum de fotografias

Inês Alves, direção ANDO Portugal

Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho

“Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – Dinâmicas de Inclusão e Exclusão” é o título do primeiro livro de Raul Tomé, Sociólogo ex-cronista do Jornal de Negócios.

Nota do autor:

Tendo presente que o corpo pode apresentar desvantagens relativamente à estética, à dinâmica e à performance exigida e/ou expectável, o presente livro focar-se-á na deficiência específica do nanismo, indivíduos sobre os quais quase nada se sabe dada a sua invisibilidade social, o seu reduzido número em Portugal e a escassez de estudos sobre tal população.  

A temática em apreço assume especial importância numa época em que é aclamado o direito à igualdade e se produz vasta legislação antidiscriminatória, bem como a implementação de políticas públicas que preveem diversificados incentivos financeiros à contratação destes indivíduos. A ineficácia que a legislação tem evidenciado ao longo do tempo, conduz à necessidade de se procurarem as causas desse fato e de examinar a existência de alguma relação entre tal ineficácia e o desconhecimento que os atores sociais dela possam ter.  

Raul Tomé

Raul Tomé apresentou a sua tese de mestrado no 1º Encontro Nacional ANDO, em 2017, também sobre a inclusão e empregabilidade de pessoas com nanismo.

Estará presente no 3º Encontro Nacional ANDO, com a apresentação “Emprego e oportunidades no mercado de trabalho”. E será lançando, no mesmo dia, o seu livro “Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – Dinâmicas de Inclusão e Exclusão”. O livro estará à venda pela primeira vez no átrio do auditório da ESEC onde se realizará o Encontro, no dia 29 de Junho 2019.

Terá a oportunidade de colocar as suas questões diretamente ao Raul Tomé, assim como a muitos outros profissionais de áreas relacionadas com as displasias ósseas, nomeadamente profissionais de saúde, psicólogos e do desporto adaptado. Não perca esta oportunidade, saiba mais sobre o encontro e inscreva-se aqui no 3º Encontro Nacional ANDO.

O livro estará disponível para aquisição durante o Encontro Nacional, sendo que todos os direitos de autor, reverterão para a associação, um apoio do Raúl Tomé à ANDO.

Subscreva ao Newsletter da ANDO aqui para receber esta informação diretamente no seu e-mail.

Reunião da Sociedade Internacional de Displasias Ósseas

Reunião International Skeletal Dysplasia Society (ISDS) 2017

A Sociedade Internacional de Displasias Ósseas (ISDS) teve a sua 13ª Reunião este ano, entre os dias 20 e 23 de Setembro onde se destacaram várias apresentações e posteres sobre várias displasias, trazendo muitas novidades em relação a novas potenciais terapias.

A Fundación ALPE publicou um relatório da reunião em Português, abordando os pontos altos em relação à acondroplasia entre eles um estudo que pretende clarificar a história natural da acondroplasia e dois estudos de compostos para o tratamento da acondroplasia, que estão em desenvolvimento pré-clínico e que mostam sinais de eficácia em modelos animais.

Este estudo da história natural está a ser levado a cabo pela Dra. Julie Hoover-Fong com o objectivo de identificar os fatores de risco relacionados com a acondroplasia e perceber se a  abordagem médica atual é eficaz. Estão a ser recolhidas informações de mais de 1200 pacientes nos EUA, e avaliação das complicações de saúde relacionadas com a acondroplasia:

  • Cardiovasculares;
  • Apneia de sono;
  • Comprometimento da função física;
  • Dor.

Em relação a novos potenciais tratamentos, o Dr. Hiroshi Kitoh, do Japão, apresentou o seu estudo sobre a Meclozina, que mostrou aumentar o comprimento do corpo e o volume do osso trabecular (consistência interna dos ossos) em ratinhos. Este medicamento, normalmente usado para tratar enjoo, mostrou ser eficaz no modelo de ratinho com acondroplasia, em doses semelhantes ou inferiores ao que normalmente se administra para os enjoos em humanos (1 a 2 mg/kg/dia).

Sendo um medicamento já existente no mercado, mas não prescrito para crianças com menos de 12 anos, o tempo de ensaio clínicos é inferior comparativamente a novos fármacos, visto já se conhecerem os seus efeitos secundários em adultos e se saber que é seguro. Contudo como a população alvo neste estudo são crianças, o medicamento tem de ser testado para esta população. Os ensaios clínicos para a Meclozina deverão ter início nos próximos meses no Japão.

O outro composto que foi falado está a ser desenvolvido pela Dra. Elize Gouze em colaboração com a Therachon AG, que é o FGFR3 solúvel (que funciona como um isco das partículas que activam o receptor FGFR3, onde existe a mutação da acondroplasia).

A grande novidade tem a ver com um estudo paralelo desenvolvido por uma das investigadoras desta equipa da Therachon AG, a Dr.ª Celine Saint-Laurent, que mostrou haver uma ligação entre a mutação da acondroplasia no FGFR3 e alterações metabólicas relacionadas com esta condição.

Logotipo International Society for Skeletal Dysplasias

A equipa de investigação mediu vários parâmetros corporais, relacionados com a densidade óssea e sanguíneos em crianças e adolescentes, que foram comparados entre três grupos de idades: [0-3 anos], [4-8] e [9 a 18]. Chegaram à conclusão que há alterações metabólicas na acondroplasia que não estão relacionadas com as complicações típicas causadas pela obesidade.

Depois injetaram o FGFR3 solúvel (sFGFR3) em ratinhos e observaram que este composto corrigiu o crescimento ósseo nesses ratinhos, assim como corrigiu também estas alterações metabólicas, reduzindo a deposição de gordura.

Há que destacar também o poster desenvolvido pela Dr.ª Jennifer Robin sobre o papel da terapia ocupacional  numa clínica multidisciplinar de displasias ósseas sobre o desenvolvimento da independência funcional de crianças. Através de estudos de caso, a investigadora mostra que no Royal Children’s Hospital, em Melbourne, Austrália, o terapeuta ocupacional consegue:

  • Melhorar a avaliação das limitações funcionais usando medidas padronizadas;
  • A identificação de barreiras no ambiente da criança (por exemplo, na escola e em casa) que tenham impacto na participação da mesma em atividades;
  • Recomendar modificações ambientais e equipamento especializado ou adaptado aos pais, escolas e terapeutas.

A Dr.ª Virginia Fano, do Hospital Garrahan na Argentina, desenvolveu curvas de crescimento para a população de pessoas com acondroplasia neste país, apresentou um poster com os resultados de um estudo antropométrico e de crescimento em crianças com hipocondroplasia causada pela mutação N540K no FGFR3. Concluiu que havia baixa estatura em 40% dos rapazes e 60% das raparigas logo ao nascimento, e que a limitação da velocidade de crescimento é mais acentuada no primeiro ano de vida e durante a puberdade.

No entanto, o poster que ganhou o primeiro prémio foi o da Dr.ª Chiara Paganini, que abordou um potencial tratamento para a displasia diastrófica, a N-acetilcisteína (NAC). Num trabalho anterior, a Dr.ª Paganini e a sua equipa mostraram que este composto melhorava o fenótipo da displasia diastrófica em ratinhos recém nascidos ao aplicar esta substância durante a gravidez. Desta vez, demonstraram melhorias ao aplicar este tratamento depois do nascimento, dando mais um passo em direção aos ensaios clínicos, funcionando como uma fonte de sulfato intracelular (cuja carência causa a displasia diastrófica).

A pseudocondroplasia também foi abordada, com uma apresentação pela Dr.ª Jaqueline Hecht, que testou vários compostos com potencialidade terapêutica num modelo de ratinhos recém-nascidos que demonstram sinais semelhantes aos da pseudocondroplasia (alterações da marcha, por exemplo). Testaram a aspirina, resveratol e oligonucleótidos antisense, obtendo melhorias no comprimento dos membros desses ratinhos com os dois primeiros compostos, e redução no fenótipo dos condrócitos relacionado com a pseudocondroplasia com os oligonucleótidos antisense.

Por fim, destacamos também a apresentação da Dr.ª Fei Shih, da companhia Clemencia, que testou um composto, o Palovaroteno, em ratinhos modelo de Ostocondromas Múltiplos, obtendo uma redução de até 83% na formação de osteocondromas nestes ratinhos e reduções nas deformações da caixa torácica. Desta forma, a Dr.ª e a sua equipa demonstraram que este composto poderá ter um impacto terapêutico nesta doença.

Com esta reunião conseguimos visualizar o estado geral da investigação de melhor qualidade sobre as displasias ósseas em todo o mundo. Ficamos a aguardar pela próxima que terá lugar em 2018. Para receber mais informação como esta diretamente no seu e-mail, subscreva a nossa Newsletter.

 

Entrevista Com Catarina Couto

Thumbnail Entrevista Catarina Couto

A quarta-feira passada foi marcada pela apresentação da tese de mestrado da Doutora Catarina Couto, intitulada “Acondroplasia: Características Esqueléticas e Cefalométricas da Face” na Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional de Viseu.

Este trabalho é de elevada importância, visto ser um dos maiores estudos na área da Medicina Dentária dedicados à acondroplasia, a displasia óssea associada ao nanismo mais comum.

Com as medições das faces que recolheu de um grupo de 24 voluntários, a Dr.ª Catarina e o seu orientador, o Professor Doutor Armandino Alves criaram algumas recomendações que podem ser seguidas para obter uma melhor saúde dentária.

Saiba o que foi trabalhado nesta tese diretamente da Doutora Catarina nesta entrevista e algumas das recomendações e tratamentos que podem ser feitos, incluindo a idade a que deve começar uma monitorização mais atenta.

Para mais recomendações, esteja atento/a ao nosso site ou subscreva ao nosso Newsletter (lado direito) para receber esta informação assim que ela esteja disponível.

Glossário

Maloclusão Classe III (ou Classe III) – Quando o maxilar superior e inferior estão desalinhados e o maxilar inferior está mais avançado que o superior.

Mordida aberta – Quando os maxilares não encaixam bem, deixando um espaço entre os dentes incisivos superiores (da frente)  e os inferiores.

Características esqueléticas e cefalométricas da face – características dos ossos da face, tendo em conta as dimensões das suas estruturas (dentes, maxilar, nariz, etc.).

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Pontos altos da entrevista

Diogo Costa: Estou aqui com a Doutora Catarina Couto que acabou de fazer a sua apresentação da sua tese sobre as características esqueléticas e cefalométricas da face em pessoas com acondroplasia.

Desde já agradeço este estudo, porque é realmente muito importante e há falta de informação sobre a medicina dentária na acondroplasia e em todas as displasias ósseas, de um modo geral.

Fez medições cefalométricas da face. Queria saber que consequências isto tem no que toca ao diagnóstico e ao tratamento.

Dr.ª Catarina Couto: Neste estudo o que fizemos foi analisar os pacientes com acondroplasia. Fizemos um exame radiográfico: teleradiografia de perfil, que é um exame que nos dá, precisamente, as estruturas da face de perfil e aquilo que acontece é que com as medições que conseguimos fazer conseguimos verificar que existe algum tipo de características diferentes nestes pacientes e prevalentes como são as Classes III e as Mordidas Abertas.

Portanto, é muito importante termos consciência da existência desta patologia, precisamente porque o diagnóstico precoce é importantíssimo e pode fazer com que, mais tarde, os problemas sejam minorados.

DC: Mais ou menos que idade é que acha que deve ser iniciado o tratamento?

CC: Por volta dos 5/6 anos de idade deve começar a ser feito um tratamento intercetivo, fazendo a abordagem aos pacientes nessa idade.

DC: E quais são as consequências de não começar a fazer o tratamento nessa altura?

CC: Aquilo que acontece é que, se conseguirmos tratar precocemente, por volta da idade que referi, 5/6 anos de idade, nós conseguimos melhorar a estética facial daqueles pacientes, conseguimos com que haja menos discrepância esquelética entre o maxilar superior e o inferior. Conseguimos também melhorar a parte psicossocial das crianças, porque a face fica com uma forma que não é tão agradável e conseguimos fazer com que não haja uma necessidade de segundo tratamento, que é uma cirurgia ortognática, em que realmente promovem cirurgicamente o recuo da mandíbula.

D: Um adulto também pode fazer este tipo de tratamento para estes problemas?

CC: Através dessa mesma cirurgia. Agora claro que, em criança nós conseguimos tratar, portanto, na idade que referi, essa mesma cirurgia pode ser evitada.

DC: Portanto, poderá ser feito o tratamento por métodos menos invasivos?

CC: Sim.

DC: Por fim, queria perguntar se tenciona continuar a seguir a investigação clínica na direção da acondroplasia e das outras displasias ósseas, se lhe interessar, claro, e o que pensa tirar daqui na próxima etapa.

CC: Nesta fase, terminei o meu curso e, portanto, vou-me dedicar à parte clínica, mas teria todo o interesse, inclusive o meu orientador também. Gostaria de fazer um doutoramento se um dia, mais tarde, se proporcionar e abraçar este tema novamente.